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Helena Vieira
Colégio Nossa Senhora da Paz, Porto
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ENSINAR HISTÓRIA A ALUNOS COM AUTISMO: DESAFIOS E ESTRATÉGIAS
O principal objetivo deste trabalho é abrir caminhos para aulas de História mais inclusivas. Aulas nas quais os professores atendem às necessidades de todos os estudantes, mas focando-se nos desafios e oportunidades no ensino de História a alunos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Revista a parca literatura específica sobre o ensino de História a alunos com autismo, desenvolveu-se um estudo empírico junto de uma pequena amostra de professores, no sentido de identificar os desafios que estes sentem quando trabalham com estes alunos e algumas das estratégias e recursos pedagógicos e didáticos que utilizam na sua praxis.
Os resultados demostram a necessidade de um maior investimento na formação de professores, assim como a urgência na utilização de recursos inclusivos que ainda são desconhecidos por parte dos docentes. Através destas e outras estratégias será possível ultrapassar algumas das dificuldades evidenciadas neste estudo.
Ensino de História, Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), Recursos Pedagógicos Inclusivos, Educação Inclusiva.
DATA DE SUBMISSÃO: 2024/09/01
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DATA DE ACEITAÇÃO: 2025/03/17
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The aim of this work is to pave the way for more in- clusive History classes, where teachers address the needs of all students, with a particular focus on the challenges and opportunities in teaching History to students with Autism Spectrum Disorder (ASD). After reviewing the scarce specific literature on teaching History to autistic students, an empirical study was conducted with a small sample of teachers to identi- fy the challenges they face when working with these students, as well as some of the pedagogical and di- dactic strategies and resources they use in their prac- tice.
The results demonstrated the need for greater invest- ment in teacher training, as well as the urgency of utilizing inclusive resources that are still largely un- known to educators. By implementing these and oth- er strategies, it may be possible to overcome some of the difficulties highlighted in this study.
History Teaching, Autism Spectrum Disorder (ASD), Inclusive Pedagogical Resources, Inclusive Education.
Introdução
Encontrar professores de História que têm alunos com autismo nas suas salas de aula já não é algo raro. O aumento do número de alunos com Perturbação do Es- pectro do Autismo (PEA) é uma realidade hoje.
Estudos recentes sobre a prevalência do autismo re- veam que o número de casos registados de autismo va- ria a nível global, de país para país. No entanto, todos são unânimes quando confirmam que o número de crianças com autismo tem registado aumentos con- sideráveis nos últimos anos. Em 2021, nos EUA, Ma- thew estimou que uma em cada 44 crianças poderá ter autismo e, em 2022, Qian Li calculou que a prevalên- cia seja já de uma em cada 30 crianças. Atualmente, em Portugal, estima-se que uma em cada 100 crianças com idade escolar tem autismo (Valente, 2024). To- davia, apesar do crescimento do número de crianças com autismo no ensino básico, o número de profes- sores de educação especial nas escolas continua a ser insuficiente (Pinheiro, 2024). Não admira, por isso, que cada vez mais professores de História enfrentem desafios específicos nas suas salas de aula, que os le- vem a procurar abordagens pedagógicas adequadas e adaptações específicas para promover a aprendizagem dos alunos autistas, permitindo-lhes uma participa- ção efetiva e a sua verdadeira inclusão no contexto educativo.
Todavia, a mudança na praxis pedagógica que se im- põe exige a compreensão e o conhecimento do que é a PEA para uma eficaz seleção e implementação de es- tratégias e de recursos pedagógicos adequados, capa- zes de favorecer aprendizagens ativas e significativas nas aulas de História.
Assim, no presente estudo, duas questões impõem-
-se: Que desafios enfrentam os professores de História do 2º e do 3º ciclo do ensino básico na sua prática leti- va com alunos autistas? E que estratégias e recursos pedagógicos podem promover a aprendizagem destes alunos nas aulas de História? A procura de respostas para estas questões orientou um estudo empírico, através da aplicação de um questionário digital, em cujas respostas se procurou obter informações sobre as dificuldades que os professores de História enfrentam no seu quotidiano e identificar as estratégias pedagó- gicas e didáticas que estes utilizam em sala de aula. O questionário, cujo conteúdo, extensão e redação foi validado por três peritos na área da educação e do ensino da História, era constituído por 28 questões, divididas por três grupos: o primeiro destinado à ca-
racterização socioprofissional da amostra, o segundo para a identificação dos desafios enfrentados pelos professores e o terceiro para identificar estratégias e recursos pedagógicos utilizados pelos docentes com os seus alunos autistas.
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Este questionário foi aplicado a 13 professores de His- tória do 2º e do 3º ciclo do ensino básico (30,8% de pro- fessores do género masculino e 69,2% de professores do género feminino), cujo tempo de serviço varia (41,7% de professores em início de carreira com 1 e 5 anos de serviço, 16,7% de professores com 11 e 15 anos de carrei- ra e 41,7% de professores experientes com 16 e 20 anos de serviço) e que lecionam em diferentes zonas do país (dois no Porto, um em Gaia, um em Gondomar, um em Valongo, um na Maia, um em Matosinhos, um na Senhora da Hora, um em Leça da Palmeira, um em Lisboa e um nos Açores). Desta amostra, 46,2% dos professores têm mestrado pós Bolonha e 53,8% têm li- cenciatura pré Bolonha. Destes 13 professores, apenas um tem formação especializada em Ensino Especial e um outro tem formação específica em PEA.
A análise dos dados recolhidos permitiu uma maior compreensão das dificuldades sentidas pelos professo- res de História e sobre como as estratégias e recursos pedagógicos podem promover a aprendizagem destes alunos nas aulas de História.
Afinal, o que é o Autismo?
O Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimen- to. Este caracteriza-se por um desenvolvimento atípi- co, por manifestações comportamentais restritas e re- petitivas, pela existência de défices na comunicação e no jogo simbólico, assim como na interação social. As crianças autistas apresentam, ainda, padrões de com- portamentos estereotipados e um repertório restrito de interesses e atividades (Alves, 2022).
O autismo afeta a maneira como as crianças comu- nicam e interagem com os outros, uma vez que estas têm dificuldade em interpretar a linguagem corporal e os sinais sociais. Algumas crianças com autismo também podem apresentar dificuldades em processar informações sensoriais, como o toque, a luz ou o som, sentindo-se, por exemplo, sobrecarregados em am- bientes barulhentos ou movimentados.
O autismo foi descrito pela primeira vez em 1943, por Leo Kanner que descreveu o comportamento de onze crianças com dificuldades na comunicação e intera- ção social. Este usou o termo autismo para descrever o comportamento dessas crianças, que se isolavam de outras pessoas e tinham interesses restritos e compor- tamentos repetitivos. Em 1944, Hans Asperger descre- veu um transtorno semelhante que foi chamado de síndrome de Asperger (Mas, 2018).
Nas décadas de 1950 e 1960, o autismo foi visto princi- palmente como um problema emocional ou de perso- nalidade e muitas crianças com autismo eram inter- nadas em instituições. Já nas décadas de 1970 e 1980, o foco começou a mudar para o tratamento comporta- mental e muitas crianças com autismo passaram a re- ceber terapias diversas. Também a partir da década de 1980, o DSM-3 mencionou pela primeira vez questões relacionadas com o autismo, com o objetivo de unifor- mizar os diagnósticos (Mas, 2018).
Entre 1990 e 2000, o interesse na genética e nas causas biológicas do autismo aumentou e muitos estudos fo- ram realizados nesse sentido. Atualmente, o autismo é visto como um transtorno do neurodesenvolvimen- to que pode afetar as crianças de modo diferente e em graus diversos, daí os especialistas usarem a designa- ção de Espectro do Autismo. Considera-se que a apli- cação de terapias adequadas pode ajudar a melhorar as capacidades de comunicação e interação social dos autistas, no sentido de os tornar o mais independen- tes possível.
O autismo é, geralmente, diagnosticado durante a in- fância. A causa exata do autismo ainda é desconheci- da, mas investigações recentes sugerem que possa ser resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais (Qian Li, 2022).
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Segundo o DSM-5 -R (2022), o manual de referência para a identificação e diagnóstico de transtornos men- tais, a PEA caracteriza-se por um prejuízo persistente na comunicação social e na interação, marcado por um défice na reciprocidade socio-emocional, por pre- juízos na linguagem verbal, não verbal ou nas intera- ções e por dificuldades na iniciação e manutenção de relações interpessoais. Paralelamente, são evidentes interesses comportamentais fixos e restritos, que se podem traduzir em estereotipias corporais ou vocais, insistência em padrões rígidos, escolha inflexível de temas ou objetos e alterações sensoriais significati- vas. Ainda segundo o DSM-5-TR, a classificação do autismo pode dividir-se em três graus: Autismo leve (requer suporte), Autismo moderado (requer suporte substancial) e Autismo severo (requer suporte muito substancial).
Existem diversos modelos de intervenção que têm sido utilizados com sucesso para trabalhar com crianças com autismo, tais como o modelo ABA (Análise Apli- cada ao Comportamento), o programa TEACCH (Trata- mento e Educação para Crianças com Défices de Comu- nicação), o PECS (Sistema de Comunicação Mediante a Troca de Figuras), o programa Son Rise (programa de intervenção baseada na interação e no desenvolvi- mento relacional da criança com autismo) e o modelo Denver (modelo de intervenção precoce baseada no de- senvolvimento criança). Todavia, é importante salien- tar que cada criança é única, pelo que é determinante que se criem planos psicopedagógicos personalizados que tenham em consideração as necessidades especí- ficas de cada criança. O envolvimento da família e a colaboração entre profissionais de saúde, educação e terapeutas é fundamental para a criação de um plano de intervenção abrangente e consistente.
Ensinar História a alunos autistas no contexto da educação inclusiva
No panorama educativo português atual, o Decreto-
-Lei n.º 54/2018 estabelece os princípios da educação inclusiva, assentes numa abordagem multinível, pressupondo um desenho universal para a aprendiza- gem e determinando as normas que devem assegurar a inclusão, como um processo que visa responder à di- versidade das necessidades e potencialidades de todos os alunos, aumentando a participação nos processos de aprendizagem e na vida da comunidade educativa. O ensino da História não deve afastar-se destes prin- cípios. Deve aproximar-se deles, adaptando as estra- tégias de ensino e aprendizagem da História, para atender às necessidades de todos os alunos, incluindo aqueles que têm autismo.
Os estudos recentes e específicos sobre o ensino de História a crianças com autismo ainda são muito re- duzidos e apresentam estudos de caso circunscritos e muito diversos. A maioria, centra-se na apresentação de experiências pedagógicas e didáticas, constituin- do-se como estudos de caso isolados.
Neto et al (2021) apresentam uma experiência pedagó- gica baseada na aplicação de uma gincana pedagógi- ca com alunos com autismo nas aulas de História. No seu trabalho, apresentam todas as etapas da gincana, o tempo previsto para cada tarefa e orientações didá- ticas concretas, considerando que elas foram capazes de promover momentos de aprendizagem simulta- neamente lúdicos e significativos. Menezes et al (2019) apresentam um plano de aula de História inclusiva para alunos com autismo e Arvellos (2019) apresen- ta, na sua dissertação de mestrado, uma forma de ensinar História a alunos com autismo em contexto de visitas de estudo, explorando o património local. Também Zakas et al (2013) apresentam um artigo in- teressante sobre ensino de História a alunos com au- tismo, no qual apresentam uma estratégia eficaz – a organização gráfica – para promover a compreensão histórica. Porém, nenhum se foca especificamente na classificação e avaliação dos recursos pedagógicos e di- dáticos criados para as experiências que serviram de base aos seus estudos, sentindo-se, por isso, a falta de
trabalhos específicos como o de Barbosa et al (2022) rea- lizado para a disciplina de Física, ou de Manique (2022) para a Matemática. Victória de Jesus (2023), na sua dissertação de final de curso, debruçou-se sobre um domínio fundamental da História – a temporalidade. No seu trabalho desenvolveu atividades no sentido de trabalhar o conceito de tempo com crianças autistas. Para abordar este conceito abstrato, recorreu sobretu- do a textos reduzidos, a imagens e a recursos digitais, acompanhados de breves fichas de exploração, salien- tando os benefícios do programa Son Rise.
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No quadro da abordagem multinível, nas aulas de His- tória, os professores podem implementar com os alu- nos com autismo várias medidas de suporte à apren- dizagem já previstos no âmbito da educação inclusiva dos alunos com autismo (DGE, 2018). Colocar o aluno num local estratégico, próximo do professor ou junto de pares de referência para a modelação de atitudes e comportamentos, é uma das primeiras estratégias a adotar. Caso o aluno tenha dificuldades advindas do processamento sensorial, será útil situar o aluno num espaço longe de estímulos (luz, ruído, entre outros) que o possam perturbar.
Criar rotinas de aula, é uma estratégia que diminui a ansiedade e a insegurança dos alunos com autismo. Favorecer um ambiente seguro, estruturado e previsí- vel é essencial. Neste sentido, o uso de listas visuais, agendas e sistemas de organização pode ajudar a pro- porcionar uma sensação de segurança e previsibilida- de, além de auxiliar o aluno na compreensão do tem- po e na antecipação de atividades.
Usar uma linguagem simples, clara e sem segundos sentidos é determinante para favorecer o sucesso dos alunos autistas. Acompanhar o discurso oral e escrito com pistas visuais, sínteses esquemáticas e recursos multissensoriais, como por exemplo, artefactos his- tóricos, maquetes para visualização de espaços his- tóricos, músicas para criar uma atmosfera histórica, recursos audiovisuais ou jogos, potenciam extraordi- nariamente a aprendizagem dos alunos com autismo. Nas aulas de História, também é importante favorecer a socialização dos alunos com autismo, promovendo a realização de trabalhos de pares ou em pequenos gru- pos que tenham como tema conteúdos próximos dos focos de interesse do aluno com autismo. Aproveitar os hiperfocos destes alunos, usando-os como ponto de partida para explorar outros assuntos relacionados é uma estratégia muito positiva.
Por outro lado, o professor de História deve ter sem- pre em consideração o tempo atribuído às tarefas ou às atividades propostas. Alunos com autismo ne- cessitam de tempo suplementar, para que possam processar as informações e responder ao que lhes é
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solicitado. A pressão pode aumentar a ansiedade e a sua desregulação. De igual forma, é importante que o professor conceda momentos de pausa controla- dos, principalmente quando os alunos evidenciem sinais de sobrecarga por estímulos sensoriais. Para evitar momentos de meltdowns (sobrecargas exterio- rizadas) ou shutdowns (sobrecargas internalizadas) é importante que o professor trabalhe em estreita cola- boração com a família e com os técnicos de saúde que acompanham a criança para identificar e prevenir os triggers destes estados de alteração comportamental.
Dificuldades enfrentadas por professores de História
Dada a ampla diversidade de características dos alunos com autismo e a falta de formação inicial e continua- da sobre autismo da maioria dos docentes, é natural que estes sintam dificuldades no processo de ensino e aprendizagem dos alunos autistas. Na sequência da aplicação do questionário aos 13 professores de Histó- ria, que constituem a amostra deste estudo, foi possí- vel identificar algumas dessas dificuldades.
De acordo com os resultados obtidos neste estudo, ve- rifica-se que a comunicação foi apontada como um de- safio frequente. Recorde-se que os alunos com autis- mo apresentam dificuldades na comunicação e que, inclusivamente, alguns autistas são não verbais.
Outro ponto importante destacado pelos professores foi a dificuldade de atuação perante as desregulações sensoriais dos alunos com autismo. Essas dificulda- des foram relatadas em diferentes graus, com alguns professores mencionando enfrentá-las raramente, enquanto outros as vivenciam com mais frequência. Além destas, a regulação dos comportamentos dos alunos com autismo também se mostrou um desafio significativo, com professores a indicar que sentem dificuldades frequentes.
Em relação à adaptação curricular, a maioria dos pro- fessores afirmou enfrentar dificuldades com regula-
ridade (69,2%). A necessidade de ajustar o currículo para atender às necessidades específicas dos alunos com autismo, estabelecendo medidas universais, se- letivas e até mesmo adicionais para implementar nas aulas de História é uma tarefa desafiadora em diversos níveis (pedagógico e metodológico), o que exige esfor- ços constantes por parte dos professores no sentido de adaptar as estratégias de ensino, diversificar os mate- riais didáticos, promover um ambiente inclusivo em sala de aula e procurar, muitas vezes por iniciativa própria, formação especializada para compreender melhor as especificidades dos alunos com autismo.
Os professores mencionaram, ainda, enfrentar fre- quentemente obstáculos na criação de ambientes ade- quados (84,6%). A criação de um ambiente propício para a aprendizagem dos alunos com autismo exige uma reorganização do espaço físico da sala de aula no sentido de minimizar os estímulos sensoriais excessi- vos que possam causar desconforto ou sobrecarga sen- sorial nos alunos.
Outro ponto importante destacado pela maioria da amostra (84,6%) foi a dificuldade na construção/adap- tação de recursos pedagógicos e didáticos. Esta pode estar relacionada com a falta deste tipo materiais nos projetos escolares, com a falta de formação específica ou até mesmo com a falta de tempo para a sua produ- ção. A construção e a adaptação de recursos pedagógi- cos e didáticos para os alunos com autismo devem ter em consideração aspetos como a comunicação visual, o uso de suportes táteis e interativos, a simplificação das informações e o desenho de atividades que favore- çam a compreensão e a participação ativa dos alunos. Tal exige um esforço adicional por parte dos professo- res, que muitas vezes enfrentam limitações de tempo e de recursos materiais para implementar as adapta- ções necessárias de forma eficiente.
Finalmente, as questões relacionadas com a com- preensão de instruções e conceitos por parte dos alu- nos com autismo foram aspetos sinalizados pelos pro- fessores como áreas desafiadoras. Enquanto alguns professores mencionaram enfrentar este tipo de difi- culdades às vezes (69,2%) ou com frequência (15,4%), outros referem que nunca as enfrentaram (15,4%).
Estes resultados indicam que os professores de Histó- ria enfrentam uma série de dificuldades ao lecionar para alunos com autismo, confirmando que a comu- nicação, a interação social, a regulação de comporta- mentos, a adaptação curricular, a organização de am- bientes de aprendizagem, a adaptação de estratégias de ensino-aprendizagem, a construção/adaptação de recursos pedagógicos e didáticos, bem como a com-
preensão de instruções e conceitos, são aspetos que demandam atenção e suporte especializado.
Com base nas respostas fornecidas pelos professores à questão aberta sobre outras dificuldades que enfren- tavam aquando do processo de ensino e aprendizagem com alunos com autismo, foram mencionadas algu- mas dificuldades concretas, nomeadamente: a diver- sidade de alunos, dificuldades ao nível da expressão escrita, comportamentos “inadequados”, a falta de tempo para o acompanhamento dos alunos com au- tismo , a falta de professores de ensino especial e de professores coadjuvantes, a falta de formação e a falta de experiência dos docentes.
Um dos docentes da amostra mencionou que as orientações dos Conselhos de Turma que priorizam a presença do aluno em sala de aula focada apenas na convivência/interação social com os colegas, podem deixar para segundo plano a aprendizagem dos alunos com autismo. Isso pode limitar a atenção dada às ne- cessidades educacionais individuais dos alunos, afe- tando o seu progresso académico.
As respostas da amostra revelam, assim, a complexi- dade e a multiplicidade de dificuldades que professo- res e alunos enfrentam no processo de ensino e apren- dizagem nas aulas de História. Os principais desafios incluem adaptar o ensino, lidar com os comportamen- tos incomuns, a falta de tempo e o apoio individuali- zado, além de uma necessidade de formação adequada para os professores.
Recursos pedagógicos inclusivos
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e estratégias pedagógicas no ensino
da História
No ensino da História, os recursos pedagógicos e di- dáticos são entendidos como ferramentas e mate- riais utilizados para auxiliar os alunos no processo de aprendizagem dos conteúdos históricos, no trata- mento de fontes, na compreensão contextualizada e até para a construção de narrativas históricas. Esses recursos podem incluir manuais escolares, livros de especialidade, documentos históricos, mapas, ima- gens, vídeos, testemunhos orais, objetos/artefactos, entre muitos outros. Mas o que tornará um recurso pedagógico e didático num recurso inclusivo?
Um recurso que se considera inclusivo é aquele que foi propositadamente criado ou selecionado para atender às necessidades de todos os alunos e que tem como finalidade facilitar o processo de ensino e aprendiza- gem. Estes devem ser, por isso, flexíveis e adotar vá- rios formatos. Podem ser visuais, auditivos, táteis, sensoriais, analógicos ou digitais, e são projetados com intenções pedagógicas concretas: transmitir co- nhecimentos, desenvolver capacidades, motivar e fa- cilitar a compreensão de conteúdos educativos.
Os recursos inclusivos podem integrar livros, jogos, atividades, multimédia, tecnologia assistiva, entre outros. Cesar (2020) considera que os recursos pedagó- gicos são facilitadores do processo de ensino e apren- dizagem para todos os alunos, na medida em que favorecem a interação professor/aluno, a construção do conhecimento, a estimulação e o estabelecimen- to de cenários reflexivos (Cesar, 2020). A adequação e a adaptação dos recursos pedagógicos e didáticos são essenciais para garantir uma educação inclusiva e de qualidade para alunos com autismo. Através delas, é possível promover a participação ativa, o envolvi- mento e o desenvolvimento pleno dos alunos autistas, respeitando as suas capacidades e dificuldades especí-
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ficas. Barbosa et al (2022) concluíram que o uso de ma- pas conceptuais, a experimentação, a comunicação alternativa, os jogos adaptados de tabuleiro, quizzes, mangá e simuladores digitais podem promover um melhor entendimento da relação teórico-prática dos conteúdos, contribuir para a autonomia e a acessibi- lidade dos alunos com autismo, estimular a interação social e a criação de vínculos de confiança (Barbosa et al, 2022).
Existem diversos recursos pedagógicos e didáticos que podem ser utilizados com alunos com autismo, de acordo com suas necessidades e preferências. Os materiais visuais, tais como imagens, pictogramas, gráficos e diagramas, que podem ser utilizados para auxiliar na compreensão e organização de informa- ções. Esses recursos visuais podem ajudar a melhorar a comunicação, a sequência lógica de ações e a com- preensão de conceitos abstratos.
As tecnologias assistivas, que podem incluir softwa- res educativos, aplicativos e dispositivos eletrónicos, podem ser valiosos recursos para apoiar alunos com autismo no processo de aprendizagem. Essas ferra- mentas podem oferecer estímulos sensoriais contro- lados, ajudar na comunicação aumentativa e ampliar o acesso aos conteúdos de forma interativa. César et al (2020) defendem que o uso de tecnologias assistivas melhoram a qualidade da interação entre o professor e o aluno, fazendo com que se envolvam de forma efe- tiva no processo de ensino e aprendizagem.
Os jogos e atividades lúdicas, como por exemplo jo- gos de cartas, de tabuleiro, quebra-cabeças, ativida- des sensoriais e de manipulação podem ser utilizados para tornar a aprendizagem mais dinâmica, envol- vente e significativa para alunos com autismo. Estas abordagens mais lúdicas e interativas promovem a in- teração social, o desenvolvimento cognitivo e motor e estimulam a criatividade.
Para alunos com autismo, também devem ser pensa- dos recursos pedagógicos e didáticos para desenvolver estratégias de organização e rotina. As crianças com autismo, dadas as suas características, tendem a be- neficiar de rotinas estruturadas e previsíveis. Neste sentido, o uso de listas visuais, agendas e sistemas de organização pode ajudar a proporcionar uma sensação de segurança e previsibilidade, além de auxiliar na compreensão do tempo e na antecipação de ativida- des.
Todavia, ao selecionar recursos pedagógicos e didáti- cos para alunos com autismo, é importante considerar alguns cuidados, nomeadamente: a individualização dos recursos, a acessibilidade, o potencial de envolvi-
mento e a colaboração. Cada autista é único, logo, os recursos devem ser selecionados com base nas neces- sidades e capacidades individuais de cada aluno. Uma abordagem personalizada garantirá que o recurso seja adequado e significativo para o aluno. Por outro lado, os recursos selecionados devem ser acessíveis e com- preensíveis para o aluno autista. Por isso, é necessário garantir a sua clareza, a sua organização visual, o tipo de linguagem utilizada e a usabilidade dos materiais. Ao mesmo tempo, os recursos devem ser atrativos e motivadores. Considerar os interesses do aluno, as suas preferências e os seus estilos de aprendizagem pode aumentar o envolvimento e a participação ativa do aluno com autismo nas atividades.
Finalmente, o envolvimento de professores e educado- res, especialistas, terapeutas e, até mesmo, familiares na seleção e adaptação dos recursos é fundamental. O diálogo e a colaboração entre estas partes interessadas podem fornecer insights valiosos sobre as necessidades específicas do aluno e ajudar a encontrar as melhores soluções.
O uso de recursos pedagógicos e didáticos adaptados e adequados para alunos com autismo desempenha um papel crucial na promoção de uma educação inclusi- va e de qualidade nas aulas de História. Ao adaptar os recursos às necessidades individuais destes alunos, é possível proporcionar uma experiência de aprendiza- gem mais significativa, contribuindo para o desenvol- vimento das suas competências sociais e emocionais. Neste sentido, Araújo (2016) defende a criação, nas escolas, de salas de recursos para alunos com autis- mo que proporcionem um ambiente no qual os agen- tes educativos tenham ao seu dispor equipamentos e materiais didáticos específicos para promover uma aprendizagem eficaz, eficiente e significativa. Este autor ressalva no final do seu estudo que a carência tanto de formação especializada de professores, quan- to de acesso a recursos e materiais didáticos que pos- sam auxiliar na aprendizagem inclusiva de alunos com autismo (Araújo, 2016).
No ensino de História, para alunos com autismo, po- dem ser utilizados diversos recursos didáticos inclu- sivos, porém, é aconselhado que se privilegiem os re- cursos visuais. O uso de imagens, fotografias, pintu- ras e ilustrações relacionadas com personalidades ou acontecimentos históricos podem ser utilizados para facilitar a compreensão da realidade histórica. O uso destes recursos ajuda os alunos com autismo a visua- lizarem as informações históricas de forma concreta e facilita, dessa forma, a construção do conhecimento. Histórias em banda desenhada, histórias em áudio
ou vídeos com narração também podem ser recursos eficazes para apresentar acontecimentos históricos de forma estruturada e sequencial. A utilização dessas narrativas auxilia os alunos com autismo a acompa- nharem a linha do tempo e a compreenderem as re- lações de rutura e continuidade no tempo histórico. A realização de atividades práticas, como recriar obje- tos antigos, participar em reconstituições históricas, também são de extrema valia para ajudar os alunos com autismo a envolverem-se de forma mais concreta e significativa com os conteúdos. Essas atividades es- timulam a aprendizagem sensorial e motora, promo- vendo uma compreensão mais profunda da História. Inevitável também será o uso da tecnologia no ensino de História para alunos com autismo. Jogos educati- vos, aplicativos interativos, realidade virtual ou au- mentada e vídeos educativos podem oferecer excelen- tes experiências imersivas, tornando a aprendizagem da História mais estimulante e acessível.
Na seleção de recursos pedagógicos e didáticos para alunos com autismo no ensino de História, também é essencial ter em consideração os cuidados de indivi- dualização, acessibilidade, potencial de envolvimen- to e a colaboração. Imagine-se, por exemplo, que um professor de História pretende trabalhar com alunos com autismo o modo de vida das primeiras comuni- dades do Paleolítico e do Neolítico. Para abordar este conteúdo, poderia recorrer a recursos visuais, como por exemplo imagens utilizadas no sistema PECS, ilustrações que representem as paisagens, as habita- ções, as ferramentas e os animais do período, mapas que mostrem a distribuição geográfica das comuni- dades do Paleolítico e do Neolítico ou diagramas que ilustrem o desenvolvimento da agricultura e a transi- ção do nomadismo para a vida sedentária.
Simultaneamente, o professor de História pode, tam- bém, dinamizar atividades mais sensoriais, como por exemplo a criação de maquetes de povoados, com a construção de locais de habitação como cavernas, para o período paleolítico, ou casas de barro e palha, para o período neolítico. Fazer experiências com ma- teriais naturais, como argila ou pedras, para entender como eram construídas as ferramentas da época, ou criar objetos de caça, como arcos e flechas, para com- preender os métodos de subsistência utilizados pelas comunidades paleolíticas, também são excelentes ati- vidades sensoriais, que permitem um maior envolvi- mento na disciplina e a construção de conhecimento profundo sobre o tema em estudo.
Usar banda desenhada para retratar a vida nas comu- nidades pré-históricas é um exemplo para promover
a narrativa histórica e a criação de frisos cronológicos interativos com ilustrações e descrições sobre as prin- cipais conquistas e transformações sociais entre o Pa- leolítico e o Neolítico também são exemplos de expe- riências de aprendizagem significativas para qualquer aluno.
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Assistir a vídeos educativos ou documentários que mostrem reconstruções históricas e simulações vir- tuais do modo de vida dessas comunidades, explorar recursos online, como sites de museus, que disponibi- lizam imagens, por vezes em 3D, de artefactos digitais e informações detalhadas sobre o período pré-históri- co, são exemplos de como as tecnologias de informa- ção digitais também podem facilitar a aprendizagem de alunos com autismo. Todavia, e necessário adaptar esses recursos de acordo com as necessidades indivi- duais dos alunos com autismo.
Por outro lado, oferecer suportes visuais, como pic- togramas ou diagramas simplificados, para auxiliar a compreensão das atividades pode ser extremamen- te útil. O professor de História também não se pode esquecer que é fundamental considerar a preferência sensorial de cada aluno (visual, auditiva, tátil ou ou- tra), adaptando o ambiente e os materiais de acordo com suas necessidades sensoriais.
Com o objetivo de compreender melhor as práticas dos professores de História e perceber que tipo de recursos e estratégias utilizadas com os alunos com autismo, os professores indicaram no questionário a frequência com que utilizam com alunos autistas recursos visuais (mapas, imagens, fotografias ou infografias), recur- sos auditivos (podcasts ou resumos áudio), recursos audiovisuais (documentários, filmes, vídeos curtos ou de animação), recursos táteis (livros com texturas, relevos ou pop ups, maquetes, réplicas de monumentos ou objetos antigos) e recursos multissensoriais (ma- pas interativos como sons e vibrações, realidade au- mentada, jogos digitais). A totalidade dos professores afirmou usar sempre recursos visuais. Por outro lado, os recursos auditivos são usados com menor frequên- cia (76,9%), em comparação com os recursos visuais. Quanto ao uso de recursos audiovisuais, verifica-se que estes também são usados com frequência (92,3%), enquanto os recursos táteis são pouco utilizados pelos professores (7,7%) e os recursos multissensoriais evi- denciam uma utilização moderada (38,5%).
Os professores que responderam ao questionário tam- bém mencionaram a frequência com que utilizam sis- temas de comunicação aumentativa e/ou alternativa (símbolos pictográficos ou quadros de comunicação do sistema PECS), tecnologias assistivas (harware e sof-
tware de comunicação ou de planeamento de tarefas, sistemas automáticos de leitura e escrita) e quadros, tabelas, diagramas ou agendas de rotinas. A maioria (92,3%) refere nunca utilizar este tipo de recursos.
Quanto à clareza e objetividade das instruções forne- cidas aos alunos com autismo, os dados recolhidos mostram que a maioria dos professores questionados (92,4%) afirma que fornece instruções claras e diretas aos alunos com autismo, mas constatou-se que ape- nas um dos professores que constituem a amostra deste estudo utiliza sistemas de comunicação aumen- tativa/alternativa. No que se refere ao uso de quadros, tabelas, diagramas e agendas de rotinas, à semelhan- ça do indicador anterior, verifica-se que a maioria dos professores (92,4%) não utiliza este tipo de recursos. Por fim, em relação ao uso de tecnologias assistivas, verificou-se que apenas um professor utiliza este tipo de recursos, o mesmo que usa sistemas de comunica- ção aumentativa/alternativa e que tem formação espe- cializada em educação inclusiva e sobre a PEA.
Na última questão do questionário (questão aberta), quando questionados sobre o tipo de estratégias que utilizavam com os seus alunos autistas, os professo- res referiram estratégias diversas. Um elemento da amostra apontou o acompanhamento mais direto aos alunos com autismo durante a realização de trabalhos práticos pelo professor ou pelos colegas (recursos hu- manos), evidenciando uma abordagem que proporcio- na suporte individualizado enquanto os alunos estão envolvidos em atividades práticas, garantindo que eles compreendem as tarefas e participem de manei- ra significativa. Outro salientou a presença de pro- fessores coadjuvantes em algumas aulas, que oferece suporte adicional aos alunos com autismo durante as aulas. Esta parceria permite um atendimento mais individualizado e adaptado às necessidades dos alu- nos. A promoção do trabalho em pares ou em grupo como uma estratégia pedagógica foi uma estratégia mencionada por outro professor. Esta abordagem pro- porciona oportunidades de interação social, colabora- ção e aprendizado conjunto. Ao incluir os alunos com autismo em atividades de grupo, eles podem benefi- ciar da interação com os colegas e desenvolver compe- tências sociais e de trabalho em equipa.
Um professor aponta, também, a utilização do com- putador (recurso material), especificamente o bloco de notas, como caderno digital. Isso pode ajudar os alu- nos com autismo a organizarem as suas notas, facili- tar a escrita e a edição de texto, além de permitir que eles revisem o conteúdo de forma mais independente. Outro professor apontou o uso de textos complemen-
tares e fichas formativas adaptadas. Esses materiais são projetados especificamente para atender às neces- sidades destes alunos, fornecendo informações com- plementares de maneira mais acessível e adaptada. Isso pode incluir linguagem simplificada, imagens ou suportes visuais adicionais para ajudar na compreen- são. A criação de fichas adaptadas também é mencio- nada por um professor para facilitar a compreensão e a participação ativa nas atividades propostas.
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Os resultados revelam, assim, uma variedade de re- cursos utilizados pelos professores de História no ensi- no para alunos com autismo, destacando a importân- cia de adaptar as práticas pedagógicas e disponibilizar recursos adequados. É, por isso, fundamental forne- cer suporte e capacitação aos professores para que pos- sam ampliar o seu repertório de recursos e estratégias, visando uma educação inclusiva e efetiva para todos os alunos, independentemente de suas necessidades educacionais. Os resultados apontam tanto as lacunas, quanto as boas práticas no uso de recursos pedagógicos e didáticos no ensino para alunos com autismo. A pro- moção de formação e suporte aos professores, portan- to, é essencial para capacitar e atualizar os conheci- mentos dos docentes, permitindo que eles adotem prá- ticas pedagógicas cada vez mais inclusivas e efetivas.
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Considerações Finais
Com este estudo procurou-se elencar um conjunto de desafios que os professores de História enfrentam face ao número crescente de alunos com autismo nas suas salas de aula do ensino básico, assim como identificar algumas estratégias e recursos pedagógicos que po- dem ser utilizados no contexto de ensino e aprendi- zagem. A partir da revisão da literatura e da pesquisa empírica realizada, foram obtidos insights valiosos que contribuem para o avanço do ensino inclusivo e efeti- vo de alunos com autismo na disciplina de História. Ao analisar as dificuldades enfrentadas pelos profes- sores de História no processo de ensino e aprendiza- gem, identificaram-se alguns desafios significativos, principalmente relacionados com a comunicação, a interação social, a regulação de comportamentos, a adaptação curricular, a organização de ambientes de aprendizagem, a adaptação de estratégias de ensino-
-aprendizagem, a construção/adaptação de recursos pedagógicos e didáticos, bem como a compreensão de instruções e conceitos por parte dos alunos com autismo. Estas dificuldades ressaltam a necessidade urgente de fornecer suporte especializado e formação específica para os professores lidarem de forma mais eficaz com essas questões. A análise dos recursos pe- dagógicos e didáticos utilizados pelos professores re- velou a importância dos recursos visuais no ensino da História, uma vez que são amplamente utilizados. No entanto, identificaram-se lacunas no uso de recursos auditivos, táteis e multissensoriais, bem como siste- mas de comunicação aumentativa/alternativa e tec- nologias assistivas.
A formação contínua e o acesso a recursos de quali- dade são essenciais para que os professores possam proporcionar aos alunos o suporte necessário e criar ambientes de aprendizagem verdadeiramente inclu- sivos, onde todos os alunos tenham oportunidades iguais de aprendizagem e desenvolvimento. Em últi- ma análise, a implementação de estratégias e recursos pedagógicos eficazes nas aulas de História contribuirá para a promoção da inclusão e para a maximização do potencial educacional dos alunos com autismo. Ao ga- rantir que estes alunos se sentem acolhidos, apoiados e compreendidos, está-se a construir um ambiente educacional mais inclusivo, onde todos podem parti- cipar ativamente e alcançar sucesso académico.
Todavia, importa destacar que este estudo não esgo- ta todas as possibilidades de intervenção pedagógi- ca para alunos com autismo nas aulas de História. É fundamental que futuras pesquisas e investiga- ções, suportadas preferencialmente em estudos de investigação, aprofundem aspetos específicos desta temática e ampliem as abordagens e estraté- gias propostas, visando aprimorar cada vez mais a qualidade do ensino e a inclusão de alunos com au- tismo nas aulas de História e nas escolas em geral.
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